Passos apressados de uma corrida ecoavam pela floresta, chamando a atenção dos Pokemon locais, que saíam de seus esconderijos para verem o que estava acontecendo. Era uma garota de pele negra, olhos verdes preocupados e cabelos longos despenteados cheios de galhos e folhas entrelaçados entre os fios trançados. Mal conseguia enxergar na selva escura e usava as mãos para afastar plantas e abrir caminho, fugindo de alguma coisa.
— Aai! — A garota tropeçou em alguma raiz de árvore, caindo de quatro no chão. Seus joelhos ralaram no impacto e ela mordeu o lábio inferior, sustentando a dor ao se levantar. — Droga...
Um estrondo ressoou pela floresta e vários Pikipek levantaram voo, enquanto Yungoos e Grubbin corriam apavorados. A garota abraçou-se contra o peito, e olhou para trás, vendo dois olhos brilhando em vermelho. Seu coração quase saltou para fora. O medo a consumiu, e ela ainda tentou correr, mas seu pé prendeu em alguma coisa que não conseguia ver.
— BEEEWEAAAR!
O ser de olhos vermelhos se revelou na fraca luz que vazava entre as folhas altas das árvores, sendo um grande Bewear que flexionou seus braços e rugiu, fazendo toda a floresta balançar. A garota suava com medo, mas não conseguia sair daquele lugar, quando o urso veio correndo com os punhos erguidos em sua direção e ela apenas fechou os olhos, temendo o seu fim. Mas...
— Irmãããããã!! — As gêmeas Júlia e Sarah invadiram o quarto de Lana, afastando uma cortina de conchas presas em cordinhas brilhantes que faziam um som agradável ao mexerem e serviam de porta.
— É, leva a gente pra uma aventura no mar aberto!!
— Hm, deixa eu pensar um pouco sobre isso... Não mesmo! — Lana sorriu vendo as duas se emburrarem. — Me deem licença que estou ocupada aqui, vão perturbar o Stoutland do vizinho!
Ahhh, o que eu dizia? Sim, os primeiros habitantes de Alola. Eu sempre me interessei pelas histórias deles. Eram navegadores incríveis que exploraram o continente em barcos, aliados dos Pokemon do mar! Nesse capítulo, a capitã Hina se guiou pela luz da lua após uma tempestade, e...
— Vocês não tem nada melhor para fazer, não?!
— Queremos ficar com vocêêêê! — Elas engatinharam pela cama, chegando até a beirada, e Lana recuou com o livro, envergonhada.
Lana calçou suas sandálias, pegou uma bolsa que cabia seu livro espremido junto de um caderno e das iscas de peixe, e saiu de casa, ignorando o cheiro bom do almoço que sua mãe preparava.
— Alola, Lana! — um rapaz descamisado bastante musculoso fez a saudação de boas vindas típica do arquipélago para ela enquanto um Mudbray quase engolia sua mão para pegar uma maçã.
— Alola... — Lana devolveu o cumprimento rapidamente, mas o Mudbray mastigando a maçã a arrancou um sorrisinho.
— Está indo para a Colina do Riacho, não está? — perguntou o homem que agora desistiu da maçã. — Posso te dar uma carona!
— Eu agradeço, vou aceitar!
O Mudbray se juntou a mais outros dois que puxavam uma carroça. Lana se sentou onde achou mais confortável, afastando palha para os lados, e logo estavam caminhando.
Esticada sobre uma rocha estava Mareanie, servindo de musa para uma aula de pintura comandada por uma senhora com muitos colares e olhos pequenos, dentro de uma tenda aberta.
— Maaaary! — exclamou Mareanie assim que notou Lana na carroça, saltitando apressada para fora da tenda e frustrando os alunos enquanto a senhora ria.
Mareanie se aconchegou no colo da garota, que sorriu vendo sua expressão tranquila. Ela voltou a pegar em seu livro, encontrando a página onde parou.
Certo, onde estávamos? Hina e os outros navegantes sobreviveram a uma tempestade repentina, que foi interpretada como um aviso de que o Grande Oceano estava descontente com eles velejando em suas águas. Hina estranhou. Ela havia guiado o povo de Alola para todos os cantos, descobrindo novas ilhas e sempre cultuando o poder de Oceano.
Naquela noite, Hina fez suas preces a Wela, oferecendo conchas e pedindo que o fogo do arquipélago guardasse seu povo na viagem. Ela decidiu não mudar a rota. A capitã sabia se guiar no mar, sabia exatamente aonde estava e tinha a certeza de que seguia na direção certa para encontrar uma nova ilha.
— Está entregue! — O rapaz acenou para Lana, que abraçava o livro, e Mareanie. Logo partiu com os Mudbray pela estrada.
Lana seguiu pela rota até o local de seu trial, vendo de longe algumas Lapras nadando juntas. Mareanie cumprimentou alguns Yungoos conhecidos pelo caminho, e num piscar de olhos já estavam onde queriam.
A Trial Captain se esticou e respirou fundo, fechando os olhos e sentindo a brisa fresca no rosto. Ela foi até a margem do rio, avistando seu rádio no mesmo local que o deixou ontem após a falha. Sentiu um arrepio, lembrando de como ele estava estranho, se recusando a desligar.
— Preciso relaxar — disse para Mareanie, que assentiu puxando óculos de sol sabe-se lá de onde.
Lana acenou para uma das Lapras, que se aproximou sorridente. Tentou abrir o compartimento anexado ao casco dela, mas ela se fez de difícil, precisando ser comprada com carinho por baixo do queixo para ceder. Do compartimento, Lana pegou um anzol daqueles que ficam pequenos e aumentam quando o pressionam, prendeu sua isca e sentou de pernas cruzadas.
— Marya! — Mareanie a alertou para um peixe que mordeu a isca, mas Lana reagiu tarde demais, perdendo-o.
— Droga... — Ela levou uma mão à cabeça, enterrando os dedos nos cabelos.
É verdade que falei que não precisavam ligar para o meu pai, mas por experiência própria, essa é uma tarefa muito difícil. Ele sempre aparece exatamente quando você menos está afim de vê-lo, e quando começa a falar, não para. Ainda bem que não sou assim.
— Alola, pai — Lana deu o melhor sorriso que podia no momento.
— Como se fossem acreditar se eu tivesse visto mesmo... — Lana resmungou, mas ele ouviu, alisando a barba enquanto tentava decifrar o que se passava com ela.
— Eu já vi muitas coisas estranhas no mar — por fim ele disse, e Lana levantou uma sobrancelha. — Acho que está precisando velejar no Hoku!
— Eu não... — Ela começou, mas seu pai atirou a rede para cima dela.
— Te peguei, agora vai ter que vir! — Ele sorriu e ela não sustentou a cara séria, soltando um risinho.
Em alguns minutos, Mareanie estava agarrada ao mastro, com um de seus tentáculos fazendo sombra sobre os olhos e outro apontando para o horizonte do riacho. Lana estava debruçada no convés, já acostumada com o cheiro azedo de peixe, e abriu seu livro para retomar a leitura, quando seu pai o tirou de suas mãos.
— Ei!!
— Uuuh! Travessia do Mar, esse é bom! — ele disse, e Lana tentou pegá-lo de volta, mas era baixa demais para alcançar os braços elevados de seu pai. — Meus pais sempre estavam contando histórias da Capitã Hina e os monstros que ela enfrentou em suas aventuras! Foram os descendentes da tripulação dela que passaram essas histórias de geração em geração para esse livro existir. Legal essa versão com desenhos dos ancestrais.
— Haha! Desculpa, vou te devolver. Mas o que acha?
— Como assim? — Ela pegou o livro de volta, um pouco envergonhada.
— Da história. — Ele voltou ao mastro, controlando a direção do Hoku para descer até outra parte do riacho. — Acha que Oceano estava bravo com ela?
— É raro te ver interessada numa história minha! Vai me contar o que está ocupando sua cabeça?
Era óbvio. Ele sempre fazia isso. Me distrai com conversa para conseguir a informação que quer de mim, e eu sempre caio.
— Ontem, no rio... eu vi uma coisa estranha. Tipo um buraco onde a água sumia. Tudo sumia, na verdade. Os Pokemon ficavam imóveis e não dava para respirar... — Ela apertou o olhar enquanto contava, como se revivesse a cena. — Todos os Pokemon da colina ficaram apavorados. Eu... quase não voltei. Devo minha vida à Mareanie, Alomomola e os outros.
— Maaary! — Mareanie saltou para perto dela, recebendo carinho no queixo.
— Você relatou à Olivia e os outros?
— Não acreditaram.
— Eu acredito — Lana o olhou surpresa. — Não é qualquer coisa que faz o rio engolir a si mesmo. Assuma o mastro, me leve até onde isso aconteceu.
Lana sentiu o coração acelerar, mas trocou de lugar com o pai, fazendo uma curva para mudar a direção do Hoku. Seu pai se espreguiçou, coçando o peito por baixo da camiseta folgada.
— Meus avós não eram descendentes de Alolanos — ele disse, e Lana o olhou de canto, com Mareanie no ombro. — Mas se inspiraram em histórias como a de Hina para velejarem num barco como esse, deixando Johto para conhecerem outras terras, até encontrarem Alola e fazerem daqui um lar. Meus pais nunca pararam de velejar, e parece que eu e você também mantemos essa tradição.
— Nós... Chegamos — Lana interrompeu, e Mareanie se recolheu com os tentáculos, com medo.
— Mergulhamos, então! — Seu pai retirou a camisa, saltando para o rio e fazendo um splash que molhou o rosto de Lana.
Na água, alguns Wishiwashi emergiram, olhando para Lana um tanto aflitos. Ela respirou fundo e desamarrou a calça e o top, ficando de maiô para também mergulhar.
Por baixo d'água, ela viu o seu pai fazendo caretas para alguns Pyukumuku. Lembrava da direção que o Wishiwashi a guiou, e acelerou para lá, mas tudo estava de acordo. Nenhum pedaço faltando ou abertura para o vazio. Alguns Wishiwashi até dormiam ali.
— Hm! — Lana sentiu uma mão em seu ombro e se virou para o pai, que apontava para o alto como se dissesse que precisavam respirar agora.
— Hm!!! — Lana se recusou a voltar, queria provar que tinha mesmo algo errado, ela tinha certeza...! Estava indo mais fundo quando o braço de seu pai passou por baixo dela e a puxou para a superfície, onde finalmente respiraram. — Aaarf! Pai, vamos voltar! Eu tenho certeza que...
— Lana, não tinha nada fora do comum — ele disse, com os cabelos grudados na testa.
Lana arregalou os olhos, sentindo o rosto esquentar. Ele achou que eu inventei. Ele acha que estou mentindo.
— Está ficando mais criativa nas suas brincadeiras!
— Maaary, mary... — Mareanie se entristeceu ao ouvir a risada do pai de Lana, que olhava para o céu com a boca semiaberta.
— Eu sei o que vi, pai! — Lana elevou a voz e se virou para ele, de punhos cerrados. Mareanie se encolheu no meio. — Não vou desistir de investigar isso!
Lana deu passos firmes, puxando seu rádio e recolhendo seu anzol, começando a juntar as coisas. Seu pai olhou para o horizonte com alguma apreensão, e suspirou.
— Hina também via coisas que ninguém mais acreditava — ele disse, e Lana estava de costas. — Minha avó dizia que Oceano testa os corajosos. Joga um mistério na frente deles, tipo um anzol, pra ver se puxam a verdade. Continue em frente, Lana, mesmo que as águas te testem.
Respirando fundo, Lana se virou para o pai. Ele acenou e ela retribuiu, então puxou sua bolsa e seguiu seu caminho com Mareanie.
Na floresta escura, um Pokemon gatinho verde acordava, bocejando num miado alto. Ele olhou para os dois lados, percebendo que estava mais alto do que o normal, até olhar para cima e ver o rosto adormecido de uma garota.
— Uh...? — Ela abriu os olhos assim que ele saltou de seu colo, arrepiando os pelos e rosnando para ela. — Você acordou!
A menina se ajoelhou perto dele, que viu suas patas da frente enfaixadas com folhas. Ela o deu um sorriso amigável, e ele não relutou ao ser pego no colo novamente.
— Você me salvou naquela hora, mas ainda foi atingido... Não podia te deixar lá. Improvisei um curativo, espero que não esteja apertado — disse, e o gatinho encarou a própria pata, mas se deu conta dos joelhos ralados dela. — Ah, isso... Não se preocupe, eu estou bem.
O gato abaixou, lambendo sua ferida antes de voltar a olhá-la no rosto. Os sons da floresta no fundo criavam uma atmosfera para aquele encontro. Tudo parecia em paz, até não parecer mais.
— Pek pek!! — Um estrondo alto fez os Pikipek voarem das árvores em desespero.
A menina abraçou o gato em seu colo, ficando em alerta ao ver os Pikipek paralisando no ar. Seus olhos tremeram e ela tropeçou quando a pedra onde estava sentada desapareceu em glitches.
Já de noite, Lana caminhava por uma rua asfaltada cheia de casas e muros de pedra. Alguns comerciantes recolhiam seus produtos, como uma Probopass que juntava bijuterias de cristais e conchas.
No último capítulo do livro "Travessia do Mar", Hina diz que quando você olha para a verdade, ela te olha de volta, e aí não há mais volta.
Lana parou de andar quando chegou na calçada de um restaurante num quintal florido, com um letreiro pintado com tinta. Um cheiro gostoso escapava pela chaminé, e a entrada era decorada com uma cortina de véu branco que permitia ver o interior.
Hina foi uma navegadora que enfrentou monstros e descobriu ilhas, mas sua história não tem um final. Se pararam de contá-la, talvez tenham parado de acreditar nela.
Limpando o suor da testa, Mallow terminava de esfregar o chão do restaurante. Ela achou ter visto algo do lado de fora, e saiu para ver o que era, não encontrando ninguém e ficando confusa com isso.
Lana se sentou num mosteiro, sentindo o vento balançar suas mechas, quando passou a ficar mais agitado. Ela se levantou assustada, e viu Charizard se aproximando. Estranhou Kiawe não estar em suas costas, quando ele aterrissou e ela se aproximou, abrindo o compartimento anexado em suas costas e pegando uma carta "Para Lana." Assim que abriu, estava escrito "Eu acredito em você!".















































































