quinta-feira, 5 de novembro de 2026

#46 - A Torre Oculta

         

                


— Está quase na nossa vez.

— Evooi!

Depois de conquistar a sua sétima insígnia, Kairi encontrava-se agora no porto de Cianwood, à espera de comprar um bilhete para a balsa que a levaria de volta a Olivine. A viagem permitir-lhe-ia retomar a sua jornada rumo ao campeonato regional.

Empoleirado no ombro da treinadora, Sora observava atentamente a embarcação que acabara de atracar. Os passageiros começavam a desembarcar, enquanto outros se preparavam para embarcar. Dentro de pouco tempo, seria a vez deles regressarem a Olivine.

De repente…

— Vee?!

Sora eriçou o pelo e fixou o olhar num ponto entre os passageiros.

Kairi apercebeu-se imediatamente da mudança de comportamento do seu companheiro.

— O que foi? - perguntou, baixando a voz.

— Vee… - rosnou Sora, sem desviar os olhos.

Confusa, Kairi seguiu a direção do seu olhar, tentando perceber o que o tinha deixado tão alerta.

E, assim que viu o que Sora estava a observar, arregalou os olhos.

— Oh?!

Entre os passageiros que desembarcavam, uma jovem destacava-se das restantes pessoas.

Vestida de forma invulgar, a jovem caminhava tranquilamente ao lado de duas outras figuras. Kairi não reconheceu de imediato os seus acompanhantes, que estavam disfarçados, mas não precisou de mais do que um instante para identificar a mulher que seguia entre eles.

A antiga assistente do Professor Hale.

As recordações das Ruínas de Alph regressaram de imediato, trazendo consigo uma onda de indignação. Kairi voltou a ver, na sua memória, ela a roubar-lhe o pergaminho das mãos esqueléticas que repousavam junto dos restos mortais do rei Alphæus, o primeiro rei de Celestica, no interior do seu túmulo.

O rosto de Kairi perdeu a cor.

— ...Zinnia - murmurou, engolindo em seco.

— Próximo! - chamou a funcionária da bilheteira. — Menina, é a sua vez!

Kairi piscou os olhos, sobressaltada.

— Hã?

Só então se apercebeu de que a fila tinha avançado e de que era agora a sua vez de comprar o bilhete.

—
Desculpe, mudei de ideias - respondeu apressadamente, afastando-se da bilheteira.

E, sem esperar por mais perguntas, saiu disparada.

— Está bem… Próximo! - anunciou a funcionária, chamando o passageiro seguinte.

Kairi já corria pelo porto, com Sora agarrado ao ombro. Não tirava os olhos de Zinnia e dos seus dois acompanhantes, determinada a descobrir o que estavam a fazer ali.

—
O que é que ela estará a tramar? - murmurou Kairi, sem abrandar o passo.

— Vee…! - respondeu Sora, ainda desconfiado.

Kairi não sabia porque é que Zinnia tinha regressado, nem o que pretendia fazer desta vez.

Não tardou até Zinnia e os seus acompanhantes se destacarem dos restantes passageiros, seguindo por um caminho a norte.

Kairi observava-os atentamente, escondida atrás de um contentor.

— Isto não me cheira nada bem... - murmurou,
vendo-os afastarem-se.

De repente...

— Wingaaal!

— Eeeeek!

Um Wingull pousou mesmo à frente do contentor, apanhando Kairi completamente de surpresa e fazendo-a cair para trás.

— Guuuuul! - grasnou, esticando as asas.

Com um ar quase provocador, o Pokémon levantou voo, deixando um pequeno «presente» em cima do contentor.

— Pelo menos dessa vez não foi em mim...

— Evee! - chamou Sora.

— Ah, pois é!

Kairi voltou imediatamente a concentrar-se nos três suspeitos.

— Se formos atrás deles, vão acabar por nos descobrir... Já sei!

Retirou uma Pokébola da bolsa.


— Togetic, escolho-te a ti!

A Pokébola abriu-se na sua mão e, num clarão de luz, a pequena fada materializou-se diante dela.

— Tochic-to!

— Segue aqueles três, mas cuidado para não seres vista - sussurrou Kairi, apontando na direção do grupo.

— Chick! - assentiu Togetic, levantando voo e seguindo discretamente atrás de Zinnia e dos seus acompanhantes.

— Assim podemos segui-los com mais calma.

— Vee!

A perseguição acabou por levar Kairi de volta à caverna onde, no dia anterior, tinha treinado com Chuck para a desforra no ginásio de Cianwood.

Zinnia e os seus acompanhantes entraram na gruta, com Togetic a segui-los à distância e Kairi não muito atrás.

— Não acredito que tenham vindo treinar... - murmurou Kairi, vendo os três desaparecendo na escuridão da caverna.

— Vee!

Kairi e Sora avançaram pelo mesmo caminho, enquanto Togetic continuava a vigiar os três suspeitos, sem lhes perder o rasto.

Mais à frente, Cassidy retirou o chapéu e os óculos escuros, já farta do disfarce.

— Podemos saber, afinal, para onde é que estamos a ir?

— Não se preocupem. Estamos quase a chegar - respondeu Zinnia, com toda a tranquilidade.

Cassidy torceu o nariz, pouco convencida com aquela resposta.

Entretanto, Butch aproveitou para retirar o bigode falso.

— Nós concordámos em ajudar-te porque nos salvaste da polícia em Goldenrod - começou Butch. — Mas já estamos contigo há semanas e ainda não nos disseste ao certo em que é que te estamos a ajudar.

— Isso preocupa-vos assim tanto?-- perguntou Zinnia, com um sorriso irónico. — Vocês pertenciam à Team Rocket. Também costumavam questionar as ordens do vosso líder?

Butch engoliu em seco.

— Não foi isso que... - começou Cassidy.

Mas Zinnia interrompeu-a com uma gargalhada.


— Estou a brincar! Descontraiam um bocadinho - disse ela, antes de parar diante de uma parede rochosa. — É aqui!

Cassidy e Butch trocaram um olhar, confusos.

— Hã...?

— Um beco? - perguntou Cassidy, franzindo o sobrolho.

Zinnia suspirou, como se estivesse a lidar com duas crianças.


— Há três mil anos, um cataclismo deixou grande parte desta região submersa - começou por explicar. — Séculos mais tarde, quando os primeiros colonos chegaram ao continente e fundaram Johto, reivindicaram esta área e construíram a cidade de Cianwood. Já o que restou da região submersa acabou por ser reclamado por Hoenn, onde viria a nascer a cidade de Dewford.

Cassidy e Butch pestanejaram, voltando a olhar um para o outro.

— Pouca gente conhece esta história - continuou Zinnia. — E os historiadores nunca demonstraram grande interesse em investigá-la.

— E como é que sabes tudo isso? - perguntou Cassidy.

Zinnia não respondeu. Em vez disso, levou a mão ao pescoço e retirou um fio com um pendente metálico.

Mais atrás, Kairi observava tudo, escondida entre algumas rochas, com a cascata às suas costas. Sora permanecia junto dela, enquanto Togetic continuava atenta aos movimentos do trio.

— O que é aquilo? - murmurou Kairi, fixando o olhar no pendente.

O objeto tinha a forma de um diamante, com várias linhas cruzadas e pequenos elementos circulares embutidos na superfície. Uma haste central atravessava o meio do emblema, da qual partiam duas formas semelhantes a asas, estendendo-se a partir do topo. A parte de trás era completamente plana.

— O que é essa coisa enferrujada? - Perguntou Butch.

Zinnia sorriu, aproximando-se da parede rochosa. Com os dedos, começou a procurar alguma coisa entre as pedras.


—
É o emblema do meu povo — respondeu, encaixando-o numa pequena ranhura entre as rochas.

No instante em que o pendente encaixou, um conjunto de círculos iluminou-se a verde na parede, surpreendendo os três.

Um ruído profundo ecoou pela caverna.

A parede começou lentamente a mover-se.


As rochas afastaram-se, revelando uma entrada em forma de arco semicircular que conduzia a um espaço escuro e aparentemente profundo. À volta da abertura, a moldura apresentava um padrão ornamental, decorado com pequenos círculos em relevo.

Os olhos de Kairi arregalaram-se. Um pequeno suspiro escapou-lhe involuntariamente, levando-a a tapar imediatamente a boca com as mãos.

Zinnia deu um passo em frente.

Cassidy e Butch seguiram-na para o interior.

Kairi estreitou o olhar, determinada.


— Não podemos deixar que fujam!

— Totic!

— Evoo!

Sem perder mais tempo, Kairi e os seus Pokémon lançaram-se atrás deles.

Tochas de chama azul acendiam-se automaticamente à medida que Zinnia avançava, como se o próprio lugar iluminasse o caminho pelo longo corredor de pedra.

Kairi engoliu em seco, sentindo o peso daquele lugar.

— É claro que tinha de ser um sítio todo creepy... - suspirou. — Porque é que os maus não podem simplesmente ir aos saldos de um centro comercial?

— Vee...

Atrás deles, as tochas começavam a apagar-se uma a uma.

— É melhor despacharmo-nos.

Mais à frente, Cassidy abraçava-se a si própria, visivelmente incomodada com o ambiente.

— Mas afinal, que lugar é este...? Está a deixar-me toda arrepiada...

—Estas paredes parecem antiquíssimas. Estão todas rachadas... - murmurou Butch, aproximando a mão da pedra.

— Cuidado! - avisou Zinnia. — Esta torre está cheia de armadilhas. Basta um passo em falso e podem dizer adeus à vossa vidinha.

Cassidy e Butch pestanejaram.

Depois, olharam um para o outro.

Engoliram em seco.

Mais atrás...

— Mas que lugar é este, afinal? - questionou Kairi.

Rotom flutuava à sua volta, analisando atentamente as paredes.

— Bzzt! Não tenho dados sobre este sítio-roto. Não aparece em nenhum mapa-zzt!

— Vee... - Sora olhava de um lado para o outro, com o pelo eriçado e os sentidos em alerta.

— Toge... - Togetic também parecia sentir que havia qualquer coisa de errado naquele lugar.

— Talvez seja melhor voltarmos... - murmurou Kairi. — Tiramos umas fotografias e entregamos o caso à agente Jenny.

Decidida, começou a virar-se para trás.

Mas, ao apoiar a mão na parede, algo inesperado aconteceu.

— Hã...? - Kairi olhou para o vazio, perdendo imediatamente o equilíbrio. — AAAAAAAAAAAAAH!

— EVEEE!

— TOTIC!

— BZZZT! KAIRI-ROTO!

Os Pokémon lançaram-se atrás da treinadora, mas a parede voltou a surgir no mesmo instante, fechando-se como se nunca tivesse desaparecido.

O grupo foi engolido por uma passagem escondida e começou a deslizar por um túnel inclinado, a uma velocidade vertiginosa, como se estivesse num escorrega de um parque aquático!

— AAAAAAAAH!

Kairi deslizava descontroladamente em direção ao vazio, até que Togetic conseguiu alcançá-la e agarrá-la, puxando-a para cima.

— Tiiiiic!

— Obrigada!

— Eeevee!

— Bzzzt!

 Sora aterrou sobre as quatro patas, enquanto Togetic pousava Kairi em segurança.

Mas a tranquilidade durou pouco.

Assim que Kairi colocou o pé no chão, pisou uma pedra que cedeu sob o seu peso.

CLIC!

Seguiu-se um ruído mecânico.


— Er... As paredes estão a aproximar-se...? - reparou Kairi, olhando em redor.

— Evoooi!

— Zzzzt! CORRE!!!

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

O grupo disparou pelo corredor.


— Depressa perninhas, depressa!! - gritava Kairi enquanto corria a toda a velocidade.

Por pouco, conseguiram alcançar a outra extremidade antes de as paredes se fecharem por completo. Escaparam por um triz de serem esmagados!

Kairi apoiou as mãos nos joelhos, arfando.


—
Eu começo... a odiar este lugar...

— Vee...

As tochas de chama azul revelaram uma escadaria plana de pedra que subia em espiral, serpenteando entre os pilares onde estavam colocadas.

— Será que isto vai dar à saída? - questionou-se Kairi.

Mas, antes sequer de conseguir dar o primeiro passo, ouviu um novo som.

Um ruído metálico. Algo a girar.


— É outra armadilha, não é?

O som tornou-se cada vez mais intenso.

Até que...

Uma enorme pedra começou a rolar escadaria abaixo!

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!!!!

A rocha descia a toda a velocidade, abalando o chão a cada impacto. Kairi olhou desesperadamente para trás, mas as paredes do corredor tinham-se fechado, bloqueando qualquer hipótese de fuga.

Estava encurralada!

— Eveee! - chamou Sora, saltando para os braços da treinadora.

Ao olhar para o seu companheiro, Kairi percebeu imediatamente o que tinha de fazer para sair daquela embrulhada.

Num movimento rápido, levou a mão à bolsa e retirou uma Pokébola.

— Heracross, Brick Break!

— HERACROOH!

Num clarão de luz, Heracross surgiu diante deles e lançou-se contra a pedra. O seu chifre brilhou intensamente antes de desferir um poderoso golpe!

CRAAAAASH!

A enorme rocha partiu-se em dezenas de pedaços, que se espalharam pela escadaria.

Com o caminho finalmente livre, Kairi e os seus Pokémon retomaram a subida.

Quando chegaram ao piso superior, as tochas de chama azul voltaram a acender-se, revelando uma nova câmara. A luz trémula tornava o lugar ainda mais sinistro.

— O que é isto...? - murmurou Kairi, reparando nos pergaminhos presos às paredes, repletos de inscrições. — Não consigo perceber nada disto.

— Zzzt! Está escrito num dialecto muito antigo-roto.

— Não consegues traduzir?

— Zzzt! Estou a tentar-roto...

— Evee! - chamou Sora, apontando para o fundo da câmara.

Kairi seguiu a direção do olhar do companheiro e arregalou os olhos.

— Há uma porta ali à frente! Será que é a saída?

Mas, antes que pudesse aproximar-se, a porta abriu-se bruscamente!

— HERACROSS!

— TOTIC!

Os Pokémon colocaram-se imediatamente em posição de combate.


— GAAAAASTLY!

Um bando de Gastly irrompeu pela abertura, flutuando na direção dos intrusos. As suas expressões pareciam furiosas, como se estivessem determinados a expulsar quem ousasse invadir o seu domínio.

— Cercaram-nos!

— Evooi!

— Totic!

— Heraaa!

Os Pokémon de Kairi posicionaram-se à sua frente, prontos para enfrentar a ameaça fantasma.

Togetic concentrou energia psíquica na cabeça e avançou com um poderoso Zen Headbutt, atingindo um dos Gastly. Ao mesmo tempo, Heracross fez o seu chifre brilhar e disparou contra outro dos fantasmas.

Os Gastly responderam com Night Shade, lançando rajadas de energia negra contra os adversários.

— Sora, Shadow Ball!


O Eevee concentrou uma esfera de energia sombria entre as patas e lançou-a contra um Gastly que disparava raios negros dos olhos.

Os dois ataques chocaram violentamente, provocando uma explosão que iluminou a câmara por um instante.

Os restantes Gastly aproveitaram a distração para atacar Kairi, que se desviou no último momento.

— Quagsire, usa Mud Shot!

A treinadora retirou imediatamente outra Pokébola.

— QUAAAAAAH!

Quagsire surgiu num clarão e abriu a enorme boca, disparando uma série de bolas de lama contra os fantasmas.

— Sora, Dark Pulse!

— EBOOOOI!

Sora concentrou energia sombria e lançou uma onda de choque que atingiu vários Gastly em cheio, fazendo-os recuar.

Contudo...

Uma gargalhada arrepiante ecoou pela câmara.

— O que foi agora...?

— HAUNTAUNTAUNTAUN!

Das profundezas da passagem surgiu um assustador Haunter. Com os seus dois punhos, desferiu golpes violentos contra Heracross e Togetic, atirando-os para trás!

— Quagsire, Water Gun! — ordenou Kairi.

— QUAAAAH!

Quagsire disparou um poderoso jato de água que atingiu Haunter em cheio, empurrando-o alguns metros para trás.

Mas o fantasma recuperou rapidamente o equilíbrio e preparou-se para voltar ao ataque.

Foi então que Sora saltou por cima de Quagsire, com a cauda já endurecida.

— Iron Tail! - ordenou Kairi.


— EEEEEEEBOI!

Sora rodopiou no ar e desferiu um golpe certeiro entre os olhos de Haunter, lançando-o violentamente contra o chão!

Os Gastly, assustados com a derrota do companheiro, atravessaram as paredes e desapareceram na escuridão. Haunter, por sua vez, afundou-se no solo, desaparecendo de vista.

Kairi ficou imóvel por um instante, tentando recuperar o fôlego.

Depois, respirou fundo.

— Ufa... Acho que, por agora, estamos a salvo...

— Bzzzt! Encontrei-roto!

— Hã?

— Zzzt! Estas inscrições são... Draconid-zzt!

— Draco...nids? - Kairi inclinou a cabeça, confusa.

— Zzzzt! Um povo muito antigo-roto. Existia muito antes da colonização do continente-zzt - explicou Rotom, continuando a analisar os símbolos. — Aqui diz que esta torre foi construída em honra do Dragão Celeste, que trouxe segurança ao seu povo depois do cataclismo.


— O Dragão Celeste? Quem é esse?

— Zzzt! Não tenho informações suficientes para saber-roto - respondeu Rotom. — Mas esta torre é um monumento com mais de três mil anos!

Kairi soltou um assobio de espanto.

— Isso explica muita coisa... O estado de conservação, os Pokémon Fantasma que fizeram daqui a sua casa... E ainda por cima está escondida dentro de uma caverna!

— Vee! - assentiu Sora.

— Pois, mas não podemos ficar aqui a admirar as paredes. Temos de encontrar a Zinnia. Aposto que está a tramar alguma coisa!

Kairi retomou o caminho, acompanhada pelos seus Pokémon.

Mais acima, Zinnia, Cassidy e Butch atravessavam um corredor semelhante.

— Se aquele pendente é o emblema do teu povo, significa que este lugar vos pertence? - Perguntou Butch.

— Em outros tempos... sim - revelou Zinnia.

— E estas inscrições nas paredes? O que significam? - quis saber Cassidy.

— São orações dirigidas ao Dragão Celeste - explicou Zinnia.

— Parecem-se com os gatafunhos daquele pergaminho que andaste a tentar traduzir antes de virmos para cá... - reparou Cassidy.

— Estão escritas em Draconid, uma língua considerada morta há mais de mil anos - esclareceu Zinnia. — Era a língua que o meu povo utilizava para comunicar.

De repente, Zinnia parou.

Cassidy e Butch seguiram o seu olhar.

À sua frente erguia-se uma enorme porta de pedra, decorada com padrões semelhantes aos do pendente de Zinnia.

A mulher retirou novamente o emblema do pescoço e aproximou-se da fechadura. Com um movimento preciso, encaixou-o na ranhura.

CLIC!

Um mecanismo antigo entrou em funcionamento e a porta começou a destrancar-se.


—
anunciou Zinnia, satisfeita.

— O que é que está por trás dessa porta? - perguntou Cassidy.

— Vão descobrir muito em breve.

Zinnia encolheu os ombros e virou-se para os dois, abrindo um enorme sorriso.

— Mas, antes disso, preciso que me façam um favorzinho: tratem dos intrusos que vêm a caminho.

Cassidy e Butch pestanejaram.


— Intrusos?

Zinnia limitou-se a apontar calmamente para trás deles.

Os dois viraram-se.

E depararam-se com uma jovem treinadora a aproximar-se, acompanhada pelos seus Pokémon.


— Parem imediatamente! - gritou Kairi.

Cassidy e Butch reconheceram-na de imediato.

— É A PIRRALHA!!!! - exclamaram os dois em uníssono.

Os olhos de Kairi arregalaram-se. Finalmente conseguia ver quem eram as duas figuras que acompanhavam Zinnia.


— Vocês?! - exclamou. — Então... a Zinnia também faz parte da Team Rocket?!

Mas Zinnia nem sequer se deu ao trabalho de responder. Virou costas e atravessou a enorme porta.

— Tratem disso - ordenou, desaparecendo no interior da câmara.

Cassidy e Butch trocaram um olhar antes de pegarem nas respetivas Pokébolas.


— Lamento, pirralha, mas vais ter de te preparar para o azar — anunciou Cassidy.

— E desta vez vai ser azar a dobrar! - acrescentou Butch.

— Drowzee, vai!

— Farfetch'd, ao ataque!

Dois clarões iluminaram o corredor, revelando os Pokémon dos membros da Team Rocket.

— Droooowzeeee!

— Faaaaarfetch-faaar!

Aquele cenário era bastante familiar.

Os Pokémon de Kairi posicionaram-se imediatamente para combater. A treinadora, porém, reparou que ainda estavam bastante cansados do confronto com os Gastly e Haunter.


— Esperem! Estão todos exaustos da batalha contra os Pokémon Fantasma... Recuem!

Kairi chamou-os de volta e retirou outra Pokébola da bolsa.

— Smoochum, está na hora das beijocas!

A cápsula abriu-se num clarão de luz.

— SMOOCHUM-SMOOOCH!

A pequena beijoqueira surgiu cheia de entusiasmo e, sem perder tempo, lançou-se na direção de Drowzee e Farfetch'd.

— Hã?!

Antes que os dois Pokémon conseguissem reagir, Smoochum distribuiu-lhes duas enormes beijocas!

Os olhos de Drowzee e Farfetch'd reviraram-se e ambos tombaram no chão, profundamente adormecidos.

Cassidy e Butch ficaram a olhar, incrédulos.


— ....Cassidy, acho que vai sobrar para nós outra vez...

— Eu já percebi, Butch...


— SMOOOOOOCH!

Mas Smoochum ainda não tinha terminado!

A pequena Pokémon virou-se para os dois Rockets e, antes que pudessem fugir, plantou uma beijoca em cada uma das suas bochechas.

Cassidy e Butch pestanejaram, cambalearam por um instante e acabaram por cair também no chão, adormecidos ao lado dos seus Pokémon.

Dentro da câmara, Zinnia arregalou os olhos ao avistar o altar.

Uma luz verde emanava de uma rocha de formato peculiar, pousada no seu centro.

Zinnia sorriu e aproximou-se. Mas, antes que pudesse tocar-lhe...

— PÁRA!

Kairi irrompeu pela câmara, acompanhada pelos seus Pokémon, todos prontos a atacar.

Zinnia limitou-se a olhar por cima do ombro.

— Tu... sabes o que é isto? - perguntou.

— Não faço ideia, mas, se a Team Rocket o quer, não vou deixar que o consiga! - respondeu Kairi.


— Team Rocket... - Zinnia abanou a cabeça. — Chegaste tão longe e ainda não percebeste nada.

— Hã?

Zinnia retirou uma Pokébola do cinto.


— Não devias ter vindo...

Lançou-a ao ar.

Um clarão intenso iluminou a câmara.


— ROAAAAAAAAAAAH!

Um enorme dragão materializou-se diante de Kairi.

Ela reconheceu-o de imediato. Era o mesmo Pokémon que tinha enfrentado nas Ruínas de Alph, aquele que ajudara Zinnia a escapar. Na altura, Kairi não tinha conseguido fazer absolutamente nada contra ele.

O seu nome...

— Salamence! - Chamou Zinnia — Dragon Claw!

O dragão avançou ferozmente.

— Eevoooi!

Sora saltou para a frente, acompanhado por Heracross, Togetic e Quagsire.

Mas a diferença de poder era demasiado grande.

Salamence atacou com uma força avassaladora, fazendo os quatro Pokémon cair quase de imediato.

Smoochum escondeu-se atrás das pernas de Kairi.

— Ele é forte demais... — soluçou a treinadora.

Respirou fundo e apertou os punhos. Depois, pegou noutra Pokébola.

— Quilava, escolho-te a ti!

A cápsula abriu-se num clarão.


— Quiiiilava!

As chamas nas costas do pequeno ouriço acenderam-se. Ao reparar nos companheiros caídos, o seu olhar endureceu. Virou-se para Salamence, determinado a enfrentá-lo.

— Temos de parar a Zinnia a todo o custo! Quilava, usa Flamethrower!

— Flamethrower! - ordenou Zinnia, sem hesitar.


Os dois Pokémon dispararam intensas labaredas um contra o outro.

Smoochum observava atentamente, enquanto a temperatura da câmara começava a subir.

Quilava esforçava-se por empurrar as chamas adversárias para trás, mas o fogo de Salamence era muito mais poderoso.

— Quil...!

O pequeno Pokémon sentiu-se a ser empurrado para trás.

Os seus companheiros estavam incapacitados.

E aquele olhar de Salamence...

Por alguma razão, fez-lhe recordar o seu antigo amigo.

Feraligatr.

Lembrou-se do confronto no farol de Olivine. Daquele olhar com que o seu velho amigo o tinha enfrentado, como se já não o reconhecesse.

— Quiiiiil...

— Aguenta, Quilava! -pediu Kairi.

O ouriço cerrou os dentes e voltou a fazer força.

— Quiiiiil...!

Mas as chamas de Salamence continuavam a avançar.

Os seus companheiros estavam derrotados.

Não tinha conseguido ajudar o amigo de infância.

E agora, nem sequer conseguia proteger aqueles que estavam ao seu lado.

Teria Quilava chegado ao seu limite?

Não!

O pequeno Pokémon recusava-se a aceitar isso.

O seu olhar inflamou-se.

Precisava de lutar.

Precisava de ajudar os seus companheiros.

Precisava de voltar a encontrar Feraligatr... e ajudá-lo a encontrar o caminho de volta.

Não!

Não iria desistir!

De repente, sentiu uma explosão de energia percorrer-lhe o corpo.

Era o poder de que precisava.

E então...

O seu corpo começou a brilhar.

— Quilava? - Observou Kairi, confusa.

Zinnia arqueou uma sobrancelha.

— Zzzzzt! Está a evoluir-roto!

Quilava ergueu-se sobre as duas patas traseiras. O brilho envolveu-o por completo, enquanto o seu corpo crescia e os membros se alongavam. As chamas nas suas costas tornaram-se cada vez mais intensas.


— BAKUUUUUUUUUUUUFU!!!!

A explosão de fogo iluminou toda a câmara.

Salamence não recuou e insistiu no ataque. Mas, agora, os dois Pokémon estavam em pé de igualdade.


As chamas chocaram uma contra a outra, provocando uma enorme explosão que lançou ambos para trás.

— Boa, Quilava!

— Zzzt! Agora é um Typhlosion-roto!

Kairi sorriu, emocionada.


— És incrível, Typhlosion.

— Bakuu!

Mas a batalha ainda não tinha terminado. E ambos sabiam disso.

No entanto...

Uma silhueta surgiu por entre o fumo.

Era Salamence.

E, sobre o seu dorso, encontrava-se Zinnia, segurando a rocha verde e brilhante nas mãos.


— Lamento, mas é aqui que nos despedimos!

— Groaaaaah!

— Não, espera! - gritou Kairi.

Mas Typhlosion e os restantes Pokémon estavam demasiado debilitados para a perseguirem. Muito menos pelo ar.

Apenas Smoochum continuava de pé, mas pouco podia fazer naquela situação.

Salamence agarrou Cassidy e Butch, juntamente com os seus Pokémon adormecidos, e abandonou a torre a toda a velocidade.

Kairi rangeu os dentes, frustrada.


— Merda! Fugiu outra vez!

Algum tempo depois, Kairi conseguiu regressar ao Centro Pokémon de Cianwood para recuperar os seus Pokémon.

— Ah, Kairi! Ainda bem que continuas em Cianwood! - exclamou Joy, aproximando-se com alguma urgência.

— Precisava de falar comigo? -perguntou a treinadora.

A enfermeira assentiu.

— Ligaram do Centro de Pesquisas de Pallet à tua procura. Mas pensei que já tivesses saído de Cianwood.


— À minha procura? O que terá acontecido?

Depois de deixar os seus Pokémon aos cuidados da enfermeira, Kairi dirigiu-se ao videofone do Centro Pokémon, que estava livre.

Não demorou muito até alguém atender.


— Ah Kairi! Até que enfim que te encontro, rapariga - disse o professor Oak, do outro lado.

— Professor Oak? O que aconteceu?

— Recebi uma chamada do Kurt esta manhã - revelou o professor. — Parece que fez alguns progressos com a Bola GS.

Os olhos de Kairi arregalaram-se.

— A sério?!

Oak assentiu.

— Consegues ir até Azalea? Sei que não fica propriamente perto de onde estás, mas foste tu quem me trouxe a Bola GS das Ilhas Laranja e a levou até ao Kurt, em Azalea. Por isso, pensei que gostasses de acompanhar o assunto até ao fim.

A notícia animou imediatamente Kairi. Um sorriso abriu-se-lhe no rosto, como se, por momentos, conseguisse afastar a frustração de ter deixado Zinnia escapar mais uma vez.

— É claro que quero! Viajei tanto tempo com aquela bola... Preciso mesmo de descobrir o que esconde!

Nesse instante, o altifalante do Centro Pokémon tocou.

Kairi olhou na direção do balcão, onde Joy a chamava.

Enquanto isso...

Em Azalea, Kurt estava bastante entusiasmado com a sua descoberta. Mal podia esperar para contar tudo a Kairi.

No entanto...

Na frente de sua casa...

...
uma sombra mal-intencionada movia-se silenciosamente.


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